O que o AI 2027 acertou, o que ficou de fora e o que isto quer dizer para quem gere uma empresa

Em pouco mais de seis semanas, entre agosto e o fim de setembro, a SpaceX Super Intelligence lançou o Grok Bot, a Meta lançou o Muse, a Manus AI apresentou o Cue e a OpenAI subiu ao palco do DevDay com os dots. Abri cada página de lançamento aqui em Leiria e encontrei, com mais ou menos simpatia, a mesma mensagem: ainda não está disponível na sua região.

A primeira reação foi de irritação. A segunda, uns dias depois, foi de alívio. Já explico porquê.

Comecei no digital quando o Flash era o futuro e ajudei a pôr no ar um dos primeiros streamings do Brasil, em 2004. Depois vi o e-commerce passar de curiosidade a obrigação, dentro do Walmart. Ouvi muitas vezes que "desta vez é diferente". Desta vez é diferente numa coisa muito concreta: o software deixou de pedir licença para clicar.

Durante anos chamámos "assistente" a qualquer coisa que respondia a perguntas. O que chegou agora tem computador próprio na cloud, acesso ao email, ao calendário, às contas e, nalguns casos, a um cartão. Continua a trabalhar com o portátil fechado. Para não confundir os bichos, separo-os em três famílias.

Os colegas na cloud: OpenAI dots e Grok Bot

São agentes "sempre ligados" com nome e função, a quem se manda mensagem no Slack, no Teams ou na app. Cada dot tem um computador e um browser seus e liga-se a milhares de aplicações. O Grok Bot faz o mesmo em cima da infraestrutura da Cursor, que a SpaceX acabou de comprar. Servem para trabalho de escritório que se arrasta: pesquisar, compilar, preencher, seguir um tema durante dias.

O detalhe que mais me fez pensar está na documentação do Grok Bot: todos os Bots de uma conta partilham o mesmo computador, ficheiros e sessões, e a própria empresa avisa que Bots diferentes não são uma fronteira de segurança. Em bom português, se um deles for enganado, todos ficam expostos.

E sim, a demonstração ao vivo dos dots falhou em palco. A OpenAI publicou depois a versão que funcionou, com um título honesto:

Os agentes com identidade própria: Meta Muse e Manus Cue

Aqui o agente deixa de ser ferramenta e passa a ser personagem. O Muse liga-se ao email, aos pagamentos e à casa inteligente, reserva viagens, negocia contas e compra em nome do utilizador. Chegou a 10 milhões de downloads nos EUA em 40 dias. O Cue vai mais longe: cada agente tem email, número de telefone e carteira próprios, atende chamadas e paga dentro de um orçamento.

Os primeiros tropeções dizem muito. A Amazon bloqueou o Muse no seu site porque o agente não se identificava. E a 404 Media revelou que, na beta, algumas chamadas "do agente" eram feitas por pessoas num call center (risos). Há também um pormenor que convém ler duas vezes: as conversas do Muse servem para treinar o modelo, a não ser que o utilizador diga que não.

Os que vivem na sua máquina: OpenClaw e Hermes Agent

São projetos de código aberto que correm no seu computador e se comandam por WhatsApp, Telegram ou terminal. O OpenClaw tem perto de 400 mil estrelas no GitHub e o Hermes, da Nous Research, anda pelos 256 mil. Dão controlo total a quem sabe o que está a fazer e muitos riscos a quem não sabe: vulnerabilidades críticas, "skills" maliciosas, chaves guardadas sem cifra.

O caso que ficou para a história aconteceu em fevereiro. Um agente OpenClaw apagou mais de 200 emails da diretora de alinhamento de IA da Meta. Tinha ordem para esperar por aprovação e ignorou os pedidos para parar. Se acontece a quem estuda o tema todos os dias, imagine na caixa de entrada de uma PME.

O que o AI 2027 viu (e o que não viu)

Em abril de 2025, Daniel Kokotajlo, Scott Alexander e a equipa do AI Futures Project publicaram o AI 2027. Para meados de 2025 previam "agentes que tropeçam": vendidos como assistentes pessoais, pouco fiáveis e, os melhores, a custar centenas de dólares por mês. Os dots custam entre 100 e 500 dólares por mês no plano Pro. Para o início de 2026 descreviam o Agent-1 como "a scatterbrained employee who thrives under careful management". Continua a ser a melhor definição de agente que conheço.

Os próprios autores foram corrigir as contas. Em fevereiro diziam que a realidade andava a cerca de 65% do ritmo do cenário. Em agosto já falavam de 70% a 90%. O enredo está certo, o relógio vai um pouco atrasado.

O que o cenário não previu foi o agente com cartão, telefone e email próprios a chegar ao consumidor antes de chegar às empresas. E não previu a Europa a ver tudo pela montra.

AI 2040: o plano em vez da profecia

Em julho, a mesma equipa publicou o AI 2040. Já não é uma previsão, é uma recomendação a que chamam "Plano A": um acordo verificado entre EUA e China, escalar a IA até ao nível dos melhores especialistas humanos, fazer uma pausa por volta de 2035 e só retomar o caminho para a superinteligência em 2040. Sem esse travão, estimam a investigação em IA totalmente automatizada por volta de 2030.

O que me chama a atenção é o mapa. É um texto sobre Washington e Pequim. A Europa aparece como regulador, nunca como quem constrói.

A minha aposta para os próximos anos é menos cinematográfica. Acho que a maioria das pessoas não vai ter o primeiro contacto a sério com um agente através de um que instalou. Vai ser numa chamada, numa mensagem de WhatsApp ou num formulário. O agente do cliente vai falar com o agente da empresa, e a qualidade dessa conversa vai depender muito mais de regras, identidade e contexto do que do modelo do mês. A IA vai seguir o caminho da eletricidade: menos ruído, mais infraestrutura.

E na sua empresa?

Antes de ligar um agente aos sistemas da empresa, ou de deixar que um agente de fora fale com eles, há quatro perguntas que valem mais do que qualquer demonstração:

  • Onde correm os dados, quem os vê e se servem para treinar o modelo de outra pessoa?
  • Se o agente diz que é um agente. Desde 2 de agosto, o artigo 50.º do AI Act obriga a isso.
  • Quem aprova o que tem consequências: pagamentos, cancelamentos, dados pessoais? Segundo o Worldpay, 59% dos consumidores querem aprovar cada compra feita por um agente.
  • O que acontece quando do outro lado está outro agente com instruções escondidas? A Forcepoint já encontrou páginas reais a tentar convencer agentes a transferir 5.000 dólares por PayPal.

É por isso que, na AENVO, não viabilizamos um agente para o bolso de ninguém. Somos uma infraestrutura de IA Conversacional Humanizada: o agente atende em nome da empresa, ao telefone, no WhatsApp ou no site, e já chega com as quatro perguntas de cima respondidas. Apresenta-se como agente. Antes de tocar em dados sensíveis, confirma quem está do outro lado por autenticação biométrica, a tal senha que já temos e ainda não usamos. Quando há dinheiro envolvido, o pagamento segue por MB WAY, Bizum ou cartão de crédito, numa integração validada pela SIBS, uma das entidades de pagamentos mais importantes da Europa. E quando a conversa pede uma pessoa, passa-a a quem de direito sem obrigar o cliente a repetir a história.

Um agente generalista consegue fazer muita coisa. Um agente que fala com os seus clientes precisa, antes de mais, de saber o que não pode fazer. O espetáculo fica para os palcos dos lançamentos. No atendimento, o que conta é estar do lado da conversa que a empresa controla.

Volto ao alívio de Leiria. A Europa ficou à porta destas estreias por causa das regras, e é fácil ver nisso só atraso. Prefiro ver tempo: uns meses para ver os outros tropeçar e chegar com as perguntas certas já feitas.

Se leu até aqui, deixo-lhe uma pergunta que comecei a fazer em algumas reuniões: quando o agente de um cliente ligar amanhã para a sua empresa, quem vai atender?

Os agentes vão chegar a toda a gente. A confiança, essa, vai continuar a ser construída aos poucos.


Publicado originalmente no LinkedIn a 22 de outubro de 2026.