Se você já ouviu falar em IA Incorporada, também conhecida como Embodied AI, e sentiu um certo estranhamento, podes ficar tranquilo. Não estou a falar de máquinas conscientes nem de narrativas distópicas. O que está a acontecer é algo bem mais concreto e, ao mesmo tempo, transformador.
A inteligência artificial começa a ganhar presença. Ela deixa de existir apenas como software isolado localmente ou numa nuvem e passa a interagir diretamente com o ambiente físico. Percebe o espaço à sua volta, interpreta o que acontece e age nesse mesmo espaço. Durante muito tempo, a IA foi como um cérebro sem corpo, limitada ao ambiente digital. Agora, começa a desenvolver sentidos e movimentos, o que altera profundamente a nossa relação com a tecnologia.
Esse processo lembra a evolução da eletricidade. No início, era algo visível, ruidoso e até desconfortável. Hoje, é invisível e essencial. A inteligência artificial segue um caminho semelhante. Durante anos, esteve associada a interfaces técnicas e sistemas abstratos. Agora, passa a integrar-se na economia física, lidando com peso, espaço, gravidade e tempo. Já não se trata apenas de analisar informação, mas de atuar no mundo tal como ele é.
O que antes parecia ficção científica, como na série Westworld, e tantas outras, já acontece em ambientes reais. Por falar em parques temáticos com robôs, a The Walt Disney Company começou com o Olaf, disponível em 2026 na Disneyland Paris e no Hong Kong Disneyland. A BMW testou o robô Figure 02 em linhas de produção operacionais, onde ele executa tarefas repetitivas com precisão constante e no ritmo industrial. Na América Latina, o Mercado Livre iniciou a integração do robô Digit em centros logísticos para assumir atividades fisicamente exigentes, reduzindo o esforço humano e os riscos de lesão. Na China, drones e máquinas autónomas coordenadas por IA foram usados para reconstruir longos trechos de estrada sem expor trabalhadores a riscos. Sim, isto está a acontecer! Pesquise na sua "GenAI preferida" para conferir mais.
Mas talvez o exemplo mais revelador do estágio atual dessa tecnologia venha da XPENG. No lançamento do robô humanoide Iron, o movimento ao caminhar era tão natural que despertou imediata desconfiança no público. Para dissipar qualquer dúvida, a própria empresa decidiu cortar a perna do robô durante a apresentação, apenas para provar que não se tratava de uma pessoa. Esse momento diz muito sobre o ponto a que chegamos. Já não discutimos se os robôs se movem bem, mas se se movem bem demais (risos).
Para que esse nível de realismo seja possível, esses sistemas precisam de algo muito além de modelos conversacionais. É necessário compreender o ambiente visual, relacionar essa perceção à linguagem e transformá-la em ações físicas coordenadas. É nesse contexto que surgem os Modelos de Visão, Linguagem e Ação (VLA), que funcionam como um sistema nervoso artificial. Tecnologias desenvolvidas por empresas como a NVIDIA e a Figure AI permitem que robôs aprendam novas tarefas observando, testando e ajustando seus próprios movimentos, em vez de dependerem apenas de instruções rígidas.
Outro fator decisivo nessa transição é a forma de interação. A voz surge como a interface mais natural. Hoje, apenas com agentes de IA; em breve, falar com um robô passa a ser suficiente para coordenar ações complexas. Soluções como o Gemini Robotics, do Google, permitem que pessoas comuniquem intenções de forma simples, enquanto o sistema interpreta o contexto, planeia as ações e as executa com segurança. A tecnologia deixa de exigir conhecimento técnico avançado e passa a responder à intenção humana.
Os números confirmam que esta não é uma curiosidade passageira, mas sim uma mudança estrutural. O mercado global de robôs humanoides, avaliado em 290 milhões de dólares em 2024, tem projeções de atingir 1,24 bilhão de dólares até 2032. Em ambientes logísticos e industriais, estudos indicam que robôs humanoides podem reduzir em até 40% as lesões graves associadas a esforços repetitivos, especialmente nas costas e nas articulações.
Para mim, esse avanço vai além da eficiência operacional. Ele conecta-se diretamente com a minha paixão pela experiência do utilizador e pela martech. A relação de UX deixa de ser apenas digital e passa a acontecer no mundo físico, no gesto, na voz e no contexto. A lógica de “entender para atender” ganha uma nova dimensão, na que compreender o utilizador implica perceber as intenções e agir de forma natural. É nesse ponto que surgem novas narrativas e jornadas, muito mais humanas e contínuas.
E, só para arrematar aqui, neste artigo cito o título de uma palestra no Web Summit deste ano (2025) que diz: "seus novos colegas de trabalho não comem bolos de aniversário". Quer fazer parte dos que só enxergam o lado negativo ou quer aprender e dar o primeiro passo nesse novo tipo de UX?
Publicado originalmente no LinkedIn.